A internet nas campanhas: a revolução que não aconteceu

29 de setembro de 2010

Por Alberto Oliveira, especial para o Yahoo! Brasil


Quando o presidente americano Barack Obama se elegeu, após fazer uma campanha apoiada na internet e nas mídias sociais, correu mundo a idéia de que as eleições nunca mais seriam as mesmas. No Brasil, o uso da web cresceu significativamente no pleito de 2010, mas não foi suficiente para melhorar o desempenho dos candidatos nas pesquisas. Antes mesmo do final da disputa, já tem muita gente tentando identificar o que deu certo e o que deu errado nas estratégias articuladas via rede.

Especialistas no assunto apontam alguns dos problemas que ocorreram.
Na ânsia de estar na internet, e por conta disso parecerem inovadoras, as campanhas eleitorais acabaram esquecendo de questões fundamentais: qual o papel da web, o que informar e como ajudar o eleitor a se decidir? Esses são os princípios defendidos por Crawford Kilian, em seu livro “Writing for the Web”.

Kilian foi o primeiro a analisar a importância do conteúdo na web. Para ele, erra quem se preocupa mais com o visual do que com o conteúdo, pois é o conteúdo que está por trás de tudo e o que as pessoas buscam na internet.


Sob esse ponto de vista, as campanhas majoritárias foram as que mais pecaram. De uma maneira geral, elas se preocuparam com o colorido do visual e recursos de multimídia utilizados para defender-se ou apontar o dedo na ferida do adversário. O eleitor que foi buscar informação para decidir sobre o seu voto, na melhor das hipóteses conseguiu ver um vídeo engraçado, ou um joguinho para se distrair.

“A internet [nas eleições no Brasil] foi usada muito mais como ferramenta de panfletagem de baixo custo e sem critério e para arrecadar dinheiro facilmente”, aponta o especialista em mídias digitais André de Abreu. Esses objetivos, segundo ele, trazem resultados frágeis e de curta duração. “Não se entendeu o fator ‘relacionamento’ desta mídia”, frisa Abreu.


Mas como já era de se esperar, os responsáveis pelas campanhas na web garantem absoluto sucesso. A campanha de José Serra (PSDB) chegou a contratar o americano de ascendência indiana Ravi Singh, da empresa ElectionMall, para turbinar a ação online. Mas o ‘guru’ gorou. Foi dispensado sem ter contrato renovado, após ser criticado por tucanos, especialistas da internet e de marketing.

A campanha tucana na rede emprega uma plataforma de compartilhamento, integrando site e redes sociais, com o objetivo de unir eleitores e o candidato. Entretanto, quem não tem muita habilidade com a internet fica confuso, sem saber para onde ir. As opções não são claras.

Soninha Francine, responsável pela campanha de Serra na web, frisa que muitas pessoas “torceram o nariz”, por exemplo, para os formulários de cadastro do site. “Diziam que ‘internauta detesta essas coisas’’, contou. “Mas um site de campanha é diferente, com um público muito especial.”

Já o site de Dilma Rousseff (PT), assim como o de Serra, possui página com vídeo, que abre antes de todos os outros conteúdos do site. Com alguma dificuldade, o eleitor encontra ali um pequeno botão de entrada para o restante do conteúdo. Mas logo de início se depara com um pedido para se cadastrar e receber notícias da candidata, sem que lhe seja apresentado exatamente que tipo de conteúdo ele terá.


Essas características dos sites dos principais candidatos a presidente da República fogem às regras de usabilidade, ou seja, experiência do usuário com a internet, de acordo com especialistas no assunto.

Segundo Jacob Nielsen, considerado o “papa da usabilidade” e autor dos dez mandamentos sobre o tema, que é referência para profissionais de internet, “o sistema deve mostrar os elementos de diálogo e permitir que o usuário faça suas escolhas com facilidade, sem ter de lembrar um comando específico”. Em outras palavras, o internauta deve ter à sua disposição todo o ferramental necessário para escolher o que melhor lhe seja conveniente e não ter de ficar procurando.

Diferentemente de Serra e Dilma, a candidata do PV, Marina Silva, soube aproveitar com mais eficiência os recursos da internet. As redes sociais tiveram um papel muito importante para o seu marketing. Isso se comprova na recente pesquisa de monitoramento de marcas feita pelo M&M Online, que a apontou como a candidata melhor avaliada entre os usuários das redes sociais, como Orkut, Facebook, Twitter, na blogosfera e nos sites de notícias. Marina ficou com 84,03%; Serra com 58,94%; e Dilma com 45,12%. No entanto, embora haja conteúdo que poderia ser esclarecedor ao eleitor, ao acessar sua página, a primeira informação vista por ele é um pedido de doação.

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